Betina de Bem é Prof. Dra. de Viticultura e Enologia e Terroir de Altitude de Santa Catarina. Formada em Engenheira Agrônoma pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Mestre no curso de Produção Vegetal pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), na área de fruticultura com ênfase em fitopatologia e técnicas de manejo em fruteiras de clima temperado, dedicando sua formação principalmente aos temas: doenças da videira e vitivinicultura em regiões de altitude elevada. Já atuou como docente no curso Técnico em Enologia e Viticultura (EBB Manuel Cruz – São Joaquim) e no Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC – Campus Lages), ministrando aulas referentes a área de produção vegetal nos cursos técnicos em Agroecologia e Agronegócio, e no Instituto Federal de Santa Catarina – Campus Urupema, ministrando aulas no Curso Superior de Viticultura e Enologia e no Curso Técnico em Agricultura. É Doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Produção Vegetal da Universidade do Estado de Santa Catarina – Centro de Ciências Agroveterinárias (CAV- UDESC), com participação no Programa de Doutorado Sanduíche no Exterior, realizado na Fundazione Edmund Mach – San Michele all`Adige – Itália, dedicando sua formação principalmente a doenças da videira e a resistência de variedades aos principais problemas fitossanitários da vitivinicultura de elevada altitude de Santa Catarina, visando a redução dos impactos ambientais e a viabilidade econômica da atividade.

RE: Como nasceu a paixão pelos vinhos? E há quantos anos atua na área?

BB: Na verdade, eu sempre gostei muito de estar em contato com a natureza, dos sistemas produtivos e da interação do ser humano com meio natural. Meu pai já era produtor de maçãs em São Joaquim, então resolvi cursar Agronomia para seguir os empreendimentos da família, porém quando estava na Universidade (UFSC) e cursei a cadeira de Fruticultura encontrei o Prof. Dr. Aparecido Lima da Silva, grande nome da vitivinicultura do Estado e todo um grupo de colegas e pesquisas ligados ao desenvolvimento desse setor. A partir dali me apaixonei pelo estudo da uva e do vinho, focando toda minha trajetória neste tema e nessa paixão por essa bebida. Hoje fazem 10 anos que atuo nesta área.

RE: É da região, ou se apaixonou pela Serra? Qual o diferencial das nossas vinícolas?

BB: Eu sou natural de Lages, minha família tem origem Italiana, mas minhas bisavós se estabeleceram primeiramente em Urussanga e depois subiram a serra, dando continuidade à família em São Joaquim. Sempre amei muito a nossa serra, morei muitos anos fora devido ao estudo, mas sempre quis voltar, como o fiz. O diferencial do nosso terroir está nas nossas condições edafoclimáticas, principalmente nos nossos dias quentes e noites frias durante o crescimento da videira, que fazem termos um ciclo prolongado da planta, com colheitas tardias (abril, maio..) onde historicamente chove menos, e então temos um acúmulo muito interessante de compostos fenólicos e taninos que fazem a diferença nos nossos vinhos. Além disso, a região fria favorece muitos precursores aromáticos e uma acidez elevada que mantém características de tipicidade e longevidade dos vinhos, principalmente nos brancos.


RE: Como a pandemia da COVID-19 afetou o seu trabalho? E como foi o processo de adaptação?

BB: Devido a pandemia tive que modificar meu método de trabalho, todos os cursos presenciais foram obviamente cancelados e então transformados em cursos online e com o uso também de outras ferramentas, como lives e interações nas redes sociais. Esse foi inclusive um fator positivo, pois consegui alcançar um público ainda maior de participantes. Alguns projetos mais específicos, como cursos de elaboração de vinhos não puderam ocorrer, então teremos que esperar a normalização para continuar as atividades práticas. No campo não foi necessário adaptação, o que me ajudou muito nesse período, pois as atividades da viticultura e manejo nos vinhedos continuaram iguais.

RE: As vinícolas estão muito ligadas ao turismo da nossa região, como funciona este trabalho?

BB: O Enoturismo é um ponto muito forte a ser explorado pelas vinícolas da nossa região. A maioria dos empreendimentos já percebeu sua importância, e também a valorização desse setor, oferecendo ao turista diferentes formas e serviços, como visitas guiadas dentro das vinícolas, almoços harmonizados, sunsets com degustação de vinhos, piqueniques dentro dos vinhedos, winebar para degustação e harmonização de rótulos. Enfim, uma gama de atrativos unindo a beleza natural da paisagem e dos vinhedos, com os vinhos produzidos no local e a gastronomia. Além disso, existem já eventos mais pontuais voltados a um público específico, como por exemplo, o “Circuito dos Vinhedos” onde pessoas dos mais diversos locais do país vêm a São Joaquim para participar da prova de corrida ou caminhada por meio as videiras e entre diferentes vinícolas, tendo durante a prova a degustação dos vinhos. Também um momento do ano muito voltado ao turismo é o evento da Vindima, que se encontra na sua sétima edição (2020) e ocorre sempre no mês de março, onde a grande parte das vinícolas prepara uma programação especial para os visitantes, como a colheita da uva, um dia com o enólogo, concertos musicais, cursos na área e festividades. Conta ainda com o evento físico, que ocorre durante um final de semana onde o turista pode visitar todas as vinícolas em um único local, na forma de “stands”, pode adquirir a taça do evento e degustar todos os vinhos que desejar. O Enoturismo certamente está cada vez se fortalecendo mais na nossa região e trazendo ainda mais atrativos e visitantes para Serra Catarinense.

RE: A Associação Vinhos de Altitude na Serra realiza algumas ações e como ficam as demais em união com os profissionais da área?
BB: Ao meu ver todas as vinícolas da Serra Catarinense têm uma boa aproximação entre si e também com os profissionais da área. Os produtores não se veem como concorrentes e sim como parceiros para concretizar ainda mais o terroir da região de altitude de Santa Catarina, como produtora de vinhos de excelente qualidade e trabalham unidos para o desenvolvimento continuo de toda essa região. Desta forma, contam também com o conhecimento técnico dos profissionais e instituições de pesquisa para dar o suporte necessário ao setor.

RE: Qual o principal atrativo quando falamos em vinícolas na Serra?

BB: O principal atrativo, sem dúvida são os vinhos produzidos com grande qualidade. O turista que busca conhecer vinícolas na maioria das vezes são pessoas que já são apreciadores de vinhos e o que mais impressiona é a qualidade do produto elaborado aqui na região de altitude de SC, bem como a estrutura das vinícolas. Como consequência ele observa a beleza natural em que as vinícolas estão inseridas no contexto de Serra Catarinense, bem como a gastronomia local e o charme do vinho e do frio nas cidades Serranas.

 

RE: Como funciona o seu trabalho com o Terroir da região?

BB: Eu dediquei minha formação acadêmica, tanto no mestrado como no doutorado, com pesquisas focadas ao desenvolvimento da viticultura e da enologia da região de altitude de SC. Tentamos sempre dar o suporte aos produtores através da pesquisa para solucionar problemas encontrados por eles aqui no nosso Terroir, como por exemplo verificando as melhores formas de manejo do vinhedo, como podas, condução, desfolhas; combater as principais doenças da videira, e as consequências diretas da aplicação dessas tecnologias como resultado no vinho produzido. Além disso, ao ministrar aulas no Curso Superior de Viticultura e Enologia (IFSC – Campus Urupema) pude trabalhar diretamente na formação dos futuros profissionais que atuarão na região. Também realizo cursos específicos de elaboração de vinhos e análise sensorial dentro ou em parceria com as vinícolas. De toda a forma, sempre estive em contato direto com os produtores e técnicos do setor buscando sempre poder auxiliar e promover a atividade da vitivinicultura na Serra Catarinense como um todo.

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